sábado, 23 de fevereiro de 2008

Liberdade, liberdade!

Liberdade, liberdade, que abra as suas asas! Abriram mesmo e nos aninharam numa liberdade controlada e vigiada aonde apenas nos mantemos vivos. Somos seres viventes tendo tudo pronto ao nosso redor não havendo necessidade de pensarmos em nada. Maravilha de conforto! Tudo tem um preço, inclusive esse conforto, e nesse caso o preço pago é o da total ignorância, total anulação da nossa consciência.

Ligamos a TV e recebemos todo tipo de informação que quisermos é só escolher o canal. Compramos a revista e o jornal que quisermos e temos opção de escolha; logo sentimo-nos bem informados, acompanhamos crises internas e externas, cotações da bolsa, a posição do nosso time no campeonato, enfim, julgamo-nos sermos seres bem informados. Orgulhamo-nos de sabermos e podermos conversar sobre quaisquer assuntos da atualidade e históricos também.

Mas o que acontece quando ficamos sabendo de algum escândalo ou de alguma fraude acontecida numa área em que detínhamos todo o conhecimento a ponto de termos nossas opiniões formadas e que por vezes discordávamos do que nos era apresentado como desfecho para tal situação?

Sentimo-nos frustrados por termos sido lesados intelectualmente, por termos desperdiçado nosso tempo com algo não verdadeiro.

E o que nos garante que as outras informações que recebemos também não são mascaradas e manipuladas? E que apenas não ficamos sabendo porque não vazou nenhum escândalo sobre ela.

Quanto será que existe dentro de nós de lixo informativo que nos enfiam neurônios abaixo, apenas com o objetivo de nos dar a falsa sensação de segurança por julgarmos conhecer o mundo aonde habitamos.

Sabemos que existem outras verdades embutidas, que conseguimos ler nas entrelinhas o significado real das informações. Mas será que existe alguma verdade esquecida ao acaso nas entrelinhas, ou será que não são apenas mentiras criptografadas com código de fácil acesso apenas para que nos sintamos felizes em julgar termos descoberto o mapa do labirinto.

Ledo engano pensarmos que o sistema se desvendaria de forma tão primária assim.

Com toda essa informação que detemos, o que é que conseguimos mudar neste sistema? O que é que contou a nossa opinião?

BOM DIA !!! é hora de nos libertarmos!

Cida Martini

Caso corriqueiro

Chegou ao hospital com dores agudas no baixo ventre, febre de 41º, sem condições de locomover-se devido as dores e inconsciente.

Somente três dias depois, e após muita insistência por parte dos familiares é que foi dito qual a doença: pneumonia; o que explicava o quadro febril, mas e as dores? Sem resposta.

Passado mais alguns dias e a descoberta de novos diagnósticos: derrame de pleura, derrame do pericárdio e água nos pulmões, causado por uma bactéria que também atacou seu fígado e como conseqüência ele teve icterícia.

Mas e a dor no baixo ventre? Aliás, foi por causa dessa dor que a família precisou chamar uma ambulância para transportá-lo, e não por causa da febre que era alta sim; mas não era ela que o impedia de andar. Bem; a dor ninguém esclareceu durante os 23 dias de internação e 47 exames realizados entre eles: ultra-sonografia, ressonância magnética, radiografias, hematológicos e de urina.

Afirmaram ao paciente e aos familiares, que ele corria risco de morte, afirmação esta feita em três ocasiões.

Mas como nem tudo na vida são somente dissabores, este paciente tinha a seu favor um diferencial: O CONVÊNIO MÉDICO! Sim, ele estava sendo atendido num renomado hospital particular.

Mas... voltando àquela dor! Bom... essa sumiu após dias sem explicação; inclusive sem ter sido explicada pela equipe médica, qual foi a sua causa. E a história poderia ter-se findado aqui. Mas... como nem tudo na vida são somente alegrias; novamente este paciente é fortemente acometido por dores. Aquela? Não, outra! E desta vez esta nova dor, agora na região da virilha, começou após um exame de toque feito por um médico ortopedista (ortopedista?!?!).

Finalmente uma semana após a visita desse médico, eis que o paciente obtém alta hospitalar, mas com encaminhamento para que fossem realizadas 10 sessões de fisioterapia a fim de sanar a dor na virilha; pois a explicação para ela foi de descalcificação dos ossos da bacia e, encaminhamento também para a realização de outros “N” exames de urina e hematológicos. Assim, esse paciente volta para casa, locomovendo-se precariamente precisando para tanto, apoiar-se em outras pessoas, até para sentar-se na cama.

Tendo já realizado três sessões de fisioterapia, tomando diária e pontualmente os medicamentos receitados, e sem nenhuma melhora, a família decide então levá-lo a outro hospital do mesmo convênio, porém, menos renomado e após ter efetuado dois exames diagnósticos, o médico que o atendeu informou que a dor na virilha era causada por cristais que estavam sendo liberados da bexiga para o canal da uretra, dando assim explicação também para a dor do baixo ventre, que provavelmente seriam estes mesmos cristais deslocando-se dos rins para a bexiga.

SEM COMENTÁRIOS!!! (meus)

Cida Martini


Dor de sentimento

Qual a origem desta dor! Dói porque fomos magoados, fomos magoados porque fomos repreendidos, repreendidos porque erramos, erramos porque exigimos atenção. Não tivemos a atenção que queríamos e doeu, magoou.

Devolvemos essa dor e mágoa com desatenção e omissão... e somos repreendidos; duramente repreendidos, criticados, somos desenhados com linhas horríveis e cores escuras. Um feio retrato; nos assustamos, o retrato é feio... mas é nosso.

Não nos enxergávamos assim, mas somos assim, acreditamos que esse retrato é verdadeiro, porque quem o pintou é alguém que nos ama... e quem ama não mente não aumenta, não inventa; apenas diz a verdade porque ama.

Nos ama e nos quer feliz, alegre, nos respeitando e amando... e nos machuca, e nos mostra quem nós somos sem compaixão; sem preparo; sem cuidado.

Não sabemos se choramos por nós ou por eles, por amar pessoas tão feias assim. Não sabemos se choramos por eles ou por nós, por amarmos pessoas que nos machucam assim. Não sabemos se choramos e engolimos essa mágoa, ou se enfrentamos de frente esse problema e colocamos tudo aquilo que sentimos para essas pessoas, correndo o risco de não sermos compreendidos.

Podemos perder quem amamos... podemos engolir essa mágoa... mas vai doer. Podemos correr o risco... só não podemos é perder a referência de nós mesmos, o que somos e o que queremos, aceitar a pintura, ou transformá-la num retrato melhor.

Tudo é possível.

Cida Martini

Abaixo a adolescência

Ser criança é ter tudo permitido, tudo poder, tudo ser lindo.

Ser adulto é tudo estar correto, tudo julgar, tudo saber.

E quanto ao adolescente?

Apertamos as bochechas de uma criança com prazer e fitamo-lhes os olhos com admiração.

O adulto apertamos as mãos com respeito e fitamos-lhe os olhos outorgando sabedoria.

E para o adolescente? Ah! Esse não encaramos não, olhamos para ele sempre de viés, julgando suas roupas um absurdo, seus cabelos um desacato e suas espinhas na cara uma aberração (embora mesmo sendo adultos ainda podemos ter uma quantidade considerável de espinhas na cara, porém, elas neste caso são apenas um desequilíbrio hormonal).

A criança nos responde mal e achamos lindo, e saímos contando para todos a malcriação do pequeno com muito orgulho. O adolescente nos faz questionamentos que servem para o enriquecimento dele e reflexão nossa, mas atribuímos aquele ato como uma atitude desafiadora e contra atacamos em seguida, com atitudes predatórias.

Portanto, melhor seria não termos este período intermediário entre certo e errado (entre a criança aceitar o que somos e o que o adolescente questiona sobre nossas verdades e o nosso caráter).

E assim passaríamos a responder e delegar de forma autoritária os nossos filhos enquanto eles são crianças até os 21 anos e depois disso os soltaríamos no mundo (já tendo eles recebido o título de adulto) sem passarmos por aquele desagradável período intermediário do questionamento de nós mesmos. E, sendo eles já adultos, arcariam com toda a responsabilidade por suas vidas e seus atos, nos isentando de termos que reconhecer que não somos tudo, não sabemos tudo, e que os invejamos por essa liberdade agressiva e questionadora.

Cida Martini

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Muito confuso

Anoitece. O vento frio bate na janela insistindo para entrar mesmo sem ser convidado. Fico ali parada a mercê das horas... a mercê da escuridão.

Não quero ação, não quero pensamento, quero apenas ficar inerte como seu eu não mais existisse para mim e para o mundo.

Quantas vezes me perdi em ilusões e esperanças, na ânsia de encontrar meu rumo, na certeza de que a partir daquele momento tudo iria mudar, porque na minha cabeça a vida havia se realizado em pensamento de forma plena, segura e cheia de cores.

Esse colorido nunca veio, essa vida nunca começou, nunca se sobrepôs à minha.

Desisti. Estou aqui até enquanto minha lucidez permitir, logo não mais terei discernimento para saber em que mundo estou, logo à minha frente se descortinará inúmeras realidades; diversas dimensões.

Escolho a que eu quiser, fecho os olhos e dela não saio mais. Me perco para este mundo e me deixo encontrar em outro.

Pura opção sem alternativa, pura razão sem explicação.

Parto. Estou viva, me coloco inerte. Transmuto. Modifico. Reciclo.

Cida Martini

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Vontade

Querer e não poder
Não poder por não ter coragem
Não ter coragem por ter medo
Ter medo por não se acreditar
Não se acreditar por não se permitir
Não se permitir por não se libertar
Não se libertar por não se aprovar
Não se aprovar por se diminuir
Se diminuir por não se conhecer
Não se conhecer por não se testar
Não se testar por não querer
Não querer e ao mesmo tempo querer
Querer e não poder

Cida Martini

Resgate

Trabalhara até tarde da noite. Estava cansada. Sai da fábrica e vai para casa. Sabe que lá encontrará seu repouso.

Moça pobre vinda do interior do sertão, batalhara muito para conquistar aquele emprego na fábrica, libertando-se da sua triste condição de empregada doméstica sem remuneração, tendo como paga apenas moradia e comida. E ela sabia o quanto era importante melhorar de vida.

Ao deitar-se em sua cama pensa em como era sua vida quando ainda morava no agreste.

Se vê com roupas puídas, pés descalços, mãos lanhadas, rosto sujo.

Lembra de quando era pequena e que a lida na roça era obrigatória a todas as crianças.

Lembra que sempre tinha como companhia Agenor, seu primo mais novo. Menino de tudo, ainda nem sabia falar direito. Órfão de pai e mãe. Fora acolhido por seus pais.

A noite sempre brincavam juntos e isolados das demais crianças. A brincadeira era sempre a mesma; ela era a mãe e ele o filho que sempre se aconchegava em seu colo pedindo-lhe mamar. Cresceram naquela incestuosa brincadeira de mãe, primo, filho, prima, ama de leite, filho, mãe, prima. Amantes... sem saber o serem.

Rudeza grande o agreste, e ela rememora o dia em que foi obrigada a expulsar-se dali para uma vida mais digna.
Lembra-se do dia da partida. Partida no coração. Partida na alma. Deixando Agenor para trás.

Sofrera muito até chegar aonde está hoje.


Seus pensamentos então se voltam para a realidade presente. Conquistara sua dignidade econômica.

Aos poucos o sono a domina. Dorme feliz por ter conseguido conquistar sua casa, seus móveis, seus pertences e Agenor, que depois da morte de seus pais veio morar com ela. Retribuía toda as noites o acalanto que recebera quando pequeno. Embalando-a em seu colo. Sorvendo. Alimentando. Sendo alimentado.

Amantes do agreste urbano.

Cida Martini

Auto desabafo

Vivo criando falsetas para mim mesma. Mas qualquer dia eu me pego de jeito. Afinal que história é essa de me mostrar para mim mesma de um jeito que eu não sou?

Decidi que não aceito mais essa condição que eu me imponho de sempre me forçar a aceitar coisas ou situações que na verdade não me agradam. A quem estou querendo enganar! Eu? Ou a mim mesma?

É inconcebível esta situação: quando algum assunto não me agrada de imediato eu já devia estar careca de saber que não me agradará com o tempo. Mas para não me desagradar a mim mesma, fico tentando me iludir fazendo de conta que gosto daquilo que eu me propus a mim mesma me quase obrigando a buscar maiores informações sobre aquele assunto, sendo muito maçante e cansativo para mim e para eu mesma.

Eu por mim mesma já descartaria tal assunto; porque eu me conheço! Eu sei que não adiante insistir para mim mesma, pois eu sou bastante original e fiel comigo mesma; se não gosto, não gosto e pronto.

Mas não! No entanto eu fico ali com uma cara falsamente desinteressada diante de mim mesma querendo mostrar satisfação e interesse aonde não existe.

De vez em quando eu me deparo frente a frente comigo mesma. E quando isso acontece eu não deixo passar essa oportunidade e aproveito para colocar tudo em pratos limpos. Ai então nós decidimos que se não gostamos do assunto, e que se nós somente o mantemos no nosso centro de interesse para agradar terceiros, nós estamos violando a nós mesmas, e que estamos sendo desonestas conosco.

Concordamos então, que nós duas iremos descartar tais assuntos desinteressantes e que não mais ficaremos tentando ver beleza aonde certamente existe, mas não é para a nossa visão e ficaremos livres assim, com a bagagem aliviada de pesos desnecessários, para somente ir em busca daquilo que nos agrada genuinamente e que é da nossa natureza.

Para comemorar esta nossa decisão começaremos limpando nossa caixa de mensagens, excluindo toda mensagem recebida que eu sei que nunca mais vou ler, nem tampouco precisar manter a mensagem arquivada só porque alguém a mandou para mim mesma.

E para tanto, firmamos este acordo na presença de todos.
Tenhamos dito,
Eu, mim mesma e como testemunha,

Cida Martini

Carta aos filhos

Vocês nasceram muito cedo.
Não tivemos tempo para nos preparar para as suas chegadas; ainda estávamos tentando nos entender. E de repente, vimo-nos obrigados a saber por nós e por vocês também.

Nossa criação foi cheia de “nãos” e sem que nos déssemos conta, estávamos repassando esses nãos a vocês, sem antes analisarmos se era lógico e coerente responder daquela forma.

E vocês cresceram repentinamente e então ficamos sem saber quantos nãos deveríamos falar e começamos a dizer: “vocês é quem sabem” Sim! Jogamos as responsabilidades para vocês, mas cada vez que vocês decidiam por si próprios e da forma errada ao nosso ver, usávamos então de nossas autoridades impondo proibições.

Sabemos que assim fica difícil nos compreenderem... sabemos que assim vamos nos afastando mais e mais.

Às vezes pensamos que o único progresso alcançado da nossa geração para a de vocês é que permitimos que nos tratem com menos formalidades, sem a necessidade do uso de senhor ou senhora, mas no restante fica tudo igual, porque damos a vocês o direito de decisão, porém, quando não estamos de acordo, proibimos tal atitude, nos conflitamos com vocês e perdemos a oportunidade de dar a orientação adequada, de expor nossos pontos de vista para que possamos decidir juntos; nós e vocês, a melhor maneira de nos relacionarmos.

Às vezes nem somos tão perdidos entre formas adequadas de criá-los; somos incisivamente proibitivos e fazemos de vocês, seres infelizes, castrados, orbitando em torno de nossas mágoas e frustrações, como que se pensássemos que fosse obrigação de vocês compartilharem de nossas infelicidades, de nossos medos; ou então fazemos de tudo para que vocês realizem todos os sonhos que não conseguimos realizar, sem mesmo perguntarmos se é isso que vocês querem.

Às vezes quando pressentimos que vocês querem nos perguntar algo do qual não sabemos ou não nos sentimos à vontade em falar, nos fechamos e nos distanciamos de vocês; raramente nos propomos a aprender sobre tal assunto junto com vocês porque nos sentimos expostos demais, pois isso nos daria uma condição menos superior do que a imagem que passamos a vocês; mas se fazemos isso é porque na verdade muitas vezes nos sentimos tão pequenos neste mundo, tão inferiorizados pelas nossas próprias condições de não sabermos nem ao menos quem realmente somos, porque estamos aqui e qual é o nosso propósito neste mundo; então somente nos resta sentirmos superiores e absolutos ao menos dentro de nossas próprias casas, tendo vocês como nossos adoradores.

Vivemos hoje numa época em que os jovens são mais livres e aceitamos isso até que com certa naturalidade, aceitamos as meninas adolescentes relacionando-se intimamente com outros meninos adolescentes, mas desde que esta situação ocorra na casa do vizinho, e quando essa realidade começa a adentrar nossas casas, nós ficamos sem saber o que fazer porque achamos que vocês são novas e imaturas demais, mas não temos a coragem de chamá-las para termos uma conversa a respeito, para saber o que vocês pensam, e às vezes não fazemos isso, por medo de perceber que vocês já não são tão imaturas assim e que querem ter o direito de conhecer a si próprias, e que talvez até possam nos apresentar argumentos fortes o bastante, e que nos deixarão sem ter como contestar. E se isso acontecer o que faremos? Optaremos por permitir que vocês busquem sua felicidade e façam suas próprias descobertas ou preferiremos manter a proibição para não sermos criticados pela sociedade; é uma questão difícil de ser resolvida.

Temos enorme medo de que vocês; nossos meninos adolescentes se enveredem pelos caminhos das drogas e conversamos com vocês sobre o assunto, mas quase sempre de forma impositiva ao invés de explicativa. Sabemos que estamos errados agindo assim, mas temos medo de que tendo uma conversa franca e aberta com vocês possamos passar a idéia de que somos liberais neste assunto e que vocês venham a fazer uso das drogas, fazendo-nos sentir derrotados e falhos na maneira de criá-los, e por esses motivos; nossas meninas e nossos meninos adolescentes, freqüentemente exercemos um rígido controle sobre suas vidas, invadindo até as suas privacidades, violando seus segredos de adolescentes, revistando e vasculhando seus pertences, tentando encontrar indícios de algo que temos medo de perguntar diretamente a vocês ou então preferimos fazer vistas grossas como se nada soubéssemos sobre o que se passa com vocês.

Às vezes queremos passar uma imagem de que somos legais e liberais; deixamos vocês envergonhados diante de seus amigos porque ora fazemos papel de bobos da corte com nossos excessos de brincadeiras tolas, ora somos indiscretos contando inúmeras historias de quando vocês eram pequenos, e quando não, tratamos vocês como crianças fazendo vocês se sentirem diminuídos... é que nos sentimos perdidos e até com uma ponta de inveja de ver tanta juventude e espontaneidade juntos e não raramente adquirimos uma postura forçada de adolescentes também e para arrematar essa nossa falta de aptidão, não damos privacidade a vocês e seus amigos.

Enfim... sabemos que poderíamos ter falado sobre outras tantas falhas de relacionamentos que temos com vocês, mas se tomamos esse difícil passo inicial é porque queremos crescer, queremos nos redimir e mostrar que ainda há chance de sermos pais e mães mentalmente mais saudáveis antes que nossas doenças se apoderem de vocês.

Estamos aprendendo que amar é respeitar.

Cida Martini

Dois jovens adolescentesapaixonados e drogados

A cena é a seguinte: dois jovens num ônibus, a moça dormia no colo do rapaz, encolhida, feito um bebê, percebia-se que ambos estavam alterados, talvez drogados.

Ele a cada minuto passa a mão nos longos cabelos como se fosse um cacoete. O ônibus chacoalhava e a moça nem sequer dava sinal de que iria despertar de seu sono, nem mesmo quando ele mudava de posição tentando achar um modo melhor de se acomodar. E isso ocorria com freqüência.

Ela estava ali, com sua pouca idade suas calcas rasgadas, seus cabelos trepintados, segura, dormindo tranqüilamente nos braços do seu namorado.

Ele timidamente dava-lhe beijos na testa e a acariciava, externando uma manifestação de carinho comovente e despreocupada.

Dois adolescentes apaixonados e possivelmente drogados.
Entregando-se a experiências sem medo da desaprovação do outro quanto aos seus atos... apenas se entregando aos cuidados um do outro. Apenas confortando o outro... sem julgamento, sem críticas sem se importarem com os usuários daquele ônibus.

Logo, ele será um adulto e esquecerá do não julgamento, do dar conforto, porque terá aprendido que homens são durões e com a função de regrar o mundo conforme a sua vontade,... sem compreensão.

Ela, será uma adulta e aprenderá a não expor suas fraquezas, mas dissimulá-las transformando o parceiro em culpado por seus atos considerados inseguros e infantis.
Logo... deixarão de viver e passarão a seguir a manada.
Sem experimentar, sem vivenciar ... apenas sobrevivendo.

Cida Martini

Contra mão

E de repente, um belo dia você se depara pensando em si próprio, nos caminhos pretendidos e nos que foram percorridos de fato.

Pesa prós e contras, pondera, analisa e verifica o resultado: - saldo negativo - numerosas frustrações, decepções e amarras que te fazem perceber que você é um estranho até para você mesmo, que em nada se parece com aquela pessoa que tinha inúmeros caminhos prazerosos a trilhar.

Mas o que aconteceu de errado? O que te fez se tornar essa criatura irreconhecível até para você mesmo?
Volte no tempo e perceba que você está hoje no meio de uma estrada que no início também te parecia prazerosa.

Casamento insatisfatório, trabalho estafante, vida social ilusória e uma apertada máscara em seu rosto que te impede de expressar livremente suas emoções. Nota também que todo o restante do seu corpo está preso por cordas, tal qual uma marionete e que seus movimentos são controlados por regras sociais.

Olha para frente e vê que ainda existem outros tantos caminhos a tomar, mas que para tanto, será preciso enfrentar alguns contratempos que a princípio te parecem intransponíveis, como findar um casamento de vários anos; o que te deixaria feliz, leve e livre para o encontro de uma nova união em sua vida, ou seja, se dar o direito de permitir a entrada de um novo relacionamento em sua vida que te possa trazer prazer e felicidade numa relação a dois; mas que em contrapartida traria enorme constrangimento para os seus; intromissões de amigos e familiares, todos na intenção de resolverem em poucas conversas e argumentações, algo que durante anos as pessoas mais interessadas e afetadas não conseguiram.

Outro caminho pode ser a mudança de carreira; tendo que recomeçar por vezes sentado novamente em bancos de escolas, na incerteza de que dessa vez estará fazendo a opção certa, dando inúmeras satisfações aos que te rodeiam para que não pensem que você é um fracassado na carreira atual, mas apenas quer unir necessidade e satisfação; ou deixar de fazer parte de alguns círculo de amigos, reuniões sociais e até mesmo rotineiros encontros familiares porque não se sente mais interessado pelos superficiais assuntos e opções de passatempo propostos.

Mas como modificar tudo isso, sem causar descontentamento às pessoas ao seu redor. Simplesmente impossível! Romper com regras e conceitos é um processo doloroso; porém de vital importância para quem pretende reformular a vida.

Perceba que cabe somente a você, a decisão de continuar nesta caminhada angustiante, tentando enganar a si mesmo “considerando-se” feliz, e deixando todos ao seu redor plenamente satisfeitos; ou... decidir por mudar tudo o que não lhe agrada.

Certamente esta segunda opção causará alguns desconfortos para você e para os que te rodeiam, mas depois de algum tempo, depois de passada a tormenta, sempre vem a calmaria, não é assim que diz o ditado!

E porque isso acontece? Porque você não é o centro das atenções das pessoas que te rodeiam; elas também tem suas próprias vidas para se ocuparem, elas também tem seus próprios caminhos.

Enquanto você ficar na imobilidade, maior será a sua insatisfação ao ponto dela estender-se para além das fronteiras, alcançando inclusive o território daqueles que você tenta poupar dos incômodos gerados por sua mudança de trajetória.


Cida Martini

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