sábado, 23 de fevereiro de 2008

Liberdade, liberdade!

Liberdade, liberdade, que abra as suas asas! Abriram mesmo e nos aninharam numa liberdade controlada e vigiada aonde apenas nos mantemos vivos. Somos seres viventes tendo tudo pronto ao nosso redor não havendo necessidade de pensarmos em nada. Maravilha de conforto! Tudo tem um preço, inclusive esse conforto, e nesse caso o preço pago é o da total ignorância, total anulação da nossa consciência.

Ligamos a TV e recebemos todo tipo de informação que quisermos é só escolher o canal. Compramos a revista e o jornal que quisermos e temos opção de escolha; logo sentimo-nos bem informados, acompanhamos crises internas e externas, cotações da bolsa, a posição do nosso time no campeonato, enfim, julgamo-nos sermos seres bem informados. Orgulhamo-nos de sabermos e podermos conversar sobre quaisquer assuntos da atualidade e históricos também.

Mas o que acontece quando ficamos sabendo de algum escândalo ou de alguma fraude acontecida numa área em que detínhamos todo o conhecimento a ponto de termos nossas opiniões formadas e que por vezes discordávamos do que nos era apresentado como desfecho para tal situação?

Sentimo-nos frustrados por termos sido lesados intelectualmente, por termos desperdiçado nosso tempo com algo não verdadeiro.

E o que nos garante que as outras informações que recebemos também não são mascaradas e manipuladas? E que apenas não ficamos sabendo porque não vazou nenhum escândalo sobre ela.

Quanto será que existe dentro de nós de lixo informativo que nos enfiam neurônios abaixo, apenas com o objetivo de nos dar a falsa sensação de segurança por julgarmos conhecer o mundo aonde habitamos.

Sabemos que existem outras verdades embutidas, que conseguimos ler nas entrelinhas o significado real das informações. Mas será que existe alguma verdade esquecida ao acaso nas entrelinhas, ou será que não são apenas mentiras criptografadas com código de fácil acesso apenas para que nos sintamos felizes em julgar termos descoberto o mapa do labirinto.

Ledo engano pensarmos que o sistema se desvendaria de forma tão primária assim.

Com toda essa informação que detemos, o que é que conseguimos mudar neste sistema? O que é que contou a nossa opinião?

BOM DIA !!! é hora de nos libertarmos!

Cida Martini

Caso corriqueiro

Chegou ao hospital com dores agudas no baixo ventre, febre de 41º, sem condições de locomover-se devido as dores e inconsciente.

Somente três dias depois, e após muita insistência por parte dos familiares é que foi dito qual a doença: pneumonia; o que explicava o quadro febril, mas e as dores? Sem resposta.

Passado mais alguns dias e a descoberta de novos diagnósticos: derrame de pleura, derrame do pericárdio e água nos pulmões, causado por uma bactéria que também atacou seu fígado e como conseqüência ele teve icterícia.

Mas e a dor no baixo ventre? Aliás, foi por causa dessa dor que a família precisou chamar uma ambulância para transportá-lo, e não por causa da febre que era alta sim; mas não era ela que o impedia de andar. Bem; a dor ninguém esclareceu durante os 23 dias de internação e 47 exames realizados entre eles: ultra-sonografia, ressonância magnética, radiografias, hematológicos e de urina.

Afirmaram ao paciente e aos familiares, que ele corria risco de morte, afirmação esta feita em três ocasiões.

Mas como nem tudo na vida são somente dissabores, este paciente tinha a seu favor um diferencial: O CONVÊNIO MÉDICO! Sim, ele estava sendo atendido num renomado hospital particular.

Mas... voltando àquela dor! Bom... essa sumiu após dias sem explicação; inclusive sem ter sido explicada pela equipe médica, qual foi a sua causa. E a história poderia ter-se findado aqui. Mas... como nem tudo na vida são somente alegrias; novamente este paciente é fortemente acometido por dores. Aquela? Não, outra! E desta vez esta nova dor, agora na região da virilha, começou após um exame de toque feito por um médico ortopedista (ortopedista?!?!).

Finalmente uma semana após a visita desse médico, eis que o paciente obtém alta hospitalar, mas com encaminhamento para que fossem realizadas 10 sessões de fisioterapia a fim de sanar a dor na virilha; pois a explicação para ela foi de descalcificação dos ossos da bacia e, encaminhamento também para a realização de outros “N” exames de urina e hematológicos. Assim, esse paciente volta para casa, locomovendo-se precariamente precisando para tanto, apoiar-se em outras pessoas, até para sentar-se na cama.

Tendo já realizado três sessões de fisioterapia, tomando diária e pontualmente os medicamentos receitados, e sem nenhuma melhora, a família decide então levá-lo a outro hospital do mesmo convênio, porém, menos renomado e após ter efetuado dois exames diagnósticos, o médico que o atendeu informou que a dor na virilha era causada por cristais que estavam sendo liberados da bexiga para o canal da uretra, dando assim explicação também para a dor do baixo ventre, que provavelmente seriam estes mesmos cristais deslocando-se dos rins para a bexiga.

SEM COMENTÁRIOS!!! (meus)

Cida Martini


Dor de sentimento

Qual a origem desta dor! Dói porque fomos magoados, fomos magoados porque fomos repreendidos, repreendidos porque erramos, erramos porque exigimos atenção. Não tivemos a atenção que queríamos e doeu, magoou.

Devolvemos essa dor e mágoa com desatenção e omissão... e somos repreendidos; duramente repreendidos, criticados, somos desenhados com linhas horríveis e cores escuras. Um feio retrato; nos assustamos, o retrato é feio... mas é nosso.

Não nos enxergávamos assim, mas somos assim, acreditamos que esse retrato é verdadeiro, porque quem o pintou é alguém que nos ama... e quem ama não mente não aumenta, não inventa; apenas diz a verdade porque ama.

Nos ama e nos quer feliz, alegre, nos respeitando e amando... e nos machuca, e nos mostra quem nós somos sem compaixão; sem preparo; sem cuidado.

Não sabemos se choramos por nós ou por eles, por amar pessoas tão feias assim. Não sabemos se choramos por eles ou por nós, por amarmos pessoas que nos machucam assim. Não sabemos se choramos e engolimos essa mágoa, ou se enfrentamos de frente esse problema e colocamos tudo aquilo que sentimos para essas pessoas, correndo o risco de não sermos compreendidos.

Podemos perder quem amamos... podemos engolir essa mágoa... mas vai doer. Podemos correr o risco... só não podemos é perder a referência de nós mesmos, o que somos e o que queremos, aceitar a pintura, ou transformá-la num retrato melhor.

Tudo é possível.

Cida Martini

Abaixo a adolescência

Ser criança é ter tudo permitido, tudo poder, tudo ser lindo.

Ser adulto é tudo estar correto, tudo julgar, tudo saber.

E quanto ao adolescente?

Apertamos as bochechas de uma criança com prazer e fitamo-lhes os olhos com admiração.

O adulto apertamos as mãos com respeito e fitamos-lhe os olhos outorgando sabedoria.

E para o adolescente? Ah! Esse não encaramos não, olhamos para ele sempre de viés, julgando suas roupas um absurdo, seus cabelos um desacato e suas espinhas na cara uma aberração (embora mesmo sendo adultos ainda podemos ter uma quantidade considerável de espinhas na cara, porém, elas neste caso são apenas um desequilíbrio hormonal).

A criança nos responde mal e achamos lindo, e saímos contando para todos a malcriação do pequeno com muito orgulho. O adolescente nos faz questionamentos que servem para o enriquecimento dele e reflexão nossa, mas atribuímos aquele ato como uma atitude desafiadora e contra atacamos em seguida, com atitudes predatórias.

Portanto, melhor seria não termos este período intermediário entre certo e errado (entre a criança aceitar o que somos e o que o adolescente questiona sobre nossas verdades e o nosso caráter).

E assim passaríamos a responder e delegar de forma autoritária os nossos filhos enquanto eles são crianças até os 21 anos e depois disso os soltaríamos no mundo (já tendo eles recebido o título de adulto) sem passarmos por aquele desagradável período intermediário do questionamento de nós mesmos. E, sendo eles já adultos, arcariam com toda a responsabilidade por suas vidas e seus atos, nos isentando de termos que reconhecer que não somos tudo, não sabemos tudo, e que os invejamos por essa liberdade agressiva e questionadora.

Cida Martini

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Muito confuso

Anoitece. O vento frio bate na janela insistindo para entrar mesmo sem ser convidado. Fico ali parada a mercê das horas... a mercê da escuridão.

Não quero ação, não quero pensamento, quero apenas ficar inerte como seu eu não mais existisse para mim e para o mundo.

Quantas vezes me perdi em ilusões e esperanças, na ânsia de encontrar meu rumo, na certeza de que a partir daquele momento tudo iria mudar, porque na minha cabeça a vida havia se realizado em pensamento de forma plena, segura e cheia de cores.

Esse colorido nunca veio, essa vida nunca começou, nunca se sobrepôs à minha.

Desisti. Estou aqui até enquanto minha lucidez permitir, logo não mais terei discernimento para saber em que mundo estou, logo à minha frente se descortinará inúmeras realidades; diversas dimensões.

Escolho a que eu quiser, fecho os olhos e dela não saio mais. Me perco para este mundo e me deixo encontrar em outro.

Pura opção sem alternativa, pura razão sem explicação.

Parto. Estou viva, me coloco inerte. Transmuto. Modifico. Reciclo.

Cida Martini

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Vontade

Querer e não poder
Não poder por não ter coragem
Não ter coragem por ter medo
Ter medo por não se acreditar
Não se acreditar por não se permitir
Não se permitir por não se libertar
Não se libertar por não se aprovar
Não se aprovar por se diminuir
Se diminuir por não se conhecer
Não se conhecer por não se testar
Não se testar por não querer
Não querer e ao mesmo tempo querer
Querer e não poder

Cida Martini

Resgate

Trabalhara até tarde da noite. Estava cansada. Sai da fábrica e vai para casa. Sabe que lá encontrará seu repouso.

Moça pobre vinda do interior do sertão, batalhara muito para conquistar aquele emprego na fábrica, libertando-se da sua triste condição de empregada doméstica sem remuneração, tendo como paga apenas moradia e comida. E ela sabia o quanto era importante melhorar de vida.

Ao deitar-se em sua cama pensa em como era sua vida quando ainda morava no agreste.

Se vê com roupas puídas, pés descalços, mãos lanhadas, rosto sujo.

Lembra de quando era pequena e que a lida na roça era obrigatória a todas as crianças.

Lembra que sempre tinha como companhia Agenor, seu primo mais novo. Menino de tudo, ainda nem sabia falar direito. Órfão de pai e mãe. Fora acolhido por seus pais.

A noite sempre brincavam juntos e isolados das demais crianças. A brincadeira era sempre a mesma; ela era a mãe e ele o filho que sempre se aconchegava em seu colo pedindo-lhe mamar. Cresceram naquela incestuosa brincadeira de mãe, primo, filho, prima, ama de leite, filho, mãe, prima. Amantes... sem saber o serem.

Rudeza grande o agreste, e ela rememora o dia em que foi obrigada a expulsar-se dali para uma vida mais digna.
Lembra-se do dia da partida. Partida no coração. Partida na alma. Deixando Agenor para trás.

Sofrera muito até chegar aonde está hoje.


Seus pensamentos então se voltam para a realidade presente. Conquistara sua dignidade econômica.

Aos poucos o sono a domina. Dorme feliz por ter conseguido conquistar sua casa, seus móveis, seus pertences e Agenor, que depois da morte de seus pais veio morar com ela. Retribuía toda as noites o acalanto que recebera quando pequeno. Embalando-a em seu colo. Sorvendo. Alimentando. Sendo alimentado.

Amantes do agreste urbano.

Cida Martini

Auto desabafo

Vivo criando falsetas para mim mesma. Mas qualquer dia eu me pego de jeito. Afinal que história é essa de me mostrar para mim mesma de um jeito que eu não sou?

Decidi que não aceito mais essa condição que eu me imponho de sempre me forçar a aceitar coisas ou situações que na verdade não me agradam. A quem estou querendo enganar! Eu? Ou a mim mesma?

É inconcebível esta situação: quando algum assunto não me agrada de imediato eu já devia estar careca de saber que não me agradará com o tempo. Mas para não me desagradar a mim mesma, fico tentando me iludir fazendo de conta que gosto daquilo que eu me propus a mim mesma me quase obrigando a buscar maiores informações sobre aquele assunto, sendo muito maçante e cansativo para mim e para eu mesma.

Eu por mim mesma já descartaria tal assunto; porque eu me conheço! Eu sei que não adiante insistir para mim mesma, pois eu sou bastante original e fiel comigo mesma; se não gosto, não gosto e pronto.

Mas não! No entanto eu fico ali com uma cara falsamente desinteressada diante de mim mesma querendo mostrar satisfação e interesse aonde não existe.

De vez em quando eu me deparo frente a frente comigo mesma. E quando isso acontece eu não deixo passar essa oportunidade e aproveito para colocar tudo em pratos limpos. Ai então nós decidimos que se não gostamos do assunto, e que se nós somente o mantemos no nosso centro de interesse para agradar terceiros, nós estamos violando a nós mesmas, e que estamos sendo desonestas conosco.

Concordamos então, que nós duas iremos descartar tais assuntos desinteressantes e que não mais ficaremos tentando ver beleza aonde certamente existe, mas não é para a nossa visão e ficaremos livres assim, com a bagagem aliviada de pesos desnecessários, para somente ir em busca daquilo que nos agrada genuinamente e que é da nossa natureza.

Para comemorar esta nossa decisão começaremos limpando nossa caixa de mensagens, excluindo toda mensagem recebida que eu sei que nunca mais vou ler, nem tampouco precisar manter a mensagem arquivada só porque alguém a mandou para mim mesma.

E para tanto, firmamos este acordo na presença de todos.
Tenhamos dito,
Eu, mim mesma e como testemunha,

Cida Martini

Carta aos filhos

Vocês nasceram muito cedo.
Não tivemos tempo para nos preparar para as suas chegadas; ainda estávamos tentando nos entender. E de repente, vimo-nos obrigados a saber por nós e por vocês também.

Nossa criação foi cheia de “nãos” e sem que nos déssemos conta, estávamos repassando esses nãos a vocês, sem antes analisarmos se era lógico e coerente responder daquela forma.

E vocês cresceram repentinamente e então ficamos sem saber quantos nãos deveríamos falar e começamos a dizer: “vocês é quem sabem” Sim! Jogamos as responsabilidades para vocês, mas cada vez que vocês decidiam por si próprios e da forma errada ao nosso ver, usávamos então de nossas autoridades impondo proibições.

Sabemos que assim fica difícil nos compreenderem... sabemos que assim vamos nos afastando mais e mais.

Às vezes pensamos que o único progresso alcançado da nossa geração para a de vocês é que permitimos que nos tratem com menos formalidades, sem a necessidade do uso de senhor ou senhora, mas no restante fica tudo igual, porque damos a vocês o direito de decisão, porém, quando não estamos de acordo, proibimos tal atitude, nos conflitamos com vocês e perdemos a oportunidade de dar a orientação adequada, de expor nossos pontos de vista para que possamos decidir juntos; nós e vocês, a melhor maneira de nos relacionarmos.

Às vezes nem somos tão perdidos entre formas adequadas de criá-los; somos incisivamente proibitivos e fazemos de vocês, seres infelizes, castrados, orbitando em torno de nossas mágoas e frustrações, como que se pensássemos que fosse obrigação de vocês compartilharem de nossas infelicidades, de nossos medos; ou então fazemos de tudo para que vocês realizem todos os sonhos que não conseguimos realizar, sem mesmo perguntarmos se é isso que vocês querem.

Às vezes quando pressentimos que vocês querem nos perguntar algo do qual não sabemos ou não nos sentimos à vontade em falar, nos fechamos e nos distanciamos de vocês; raramente nos propomos a aprender sobre tal assunto junto com vocês porque nos sentimos expostos demais, pois isso nos daria uma condição menos superior do que a imagem que passamos a vocês; mas se fazemos isso é porque na verdade muitas vezes nos sentimos tão pequenos neste mundo, tão inferiorizados pelas nossas próprias condições de não sabermos nem ao menos quem realmente somos, porque estamos aqui e qual é o nosso propósito neste mundo; então somente nos resta sentirmos superiores e absolutos ao menos dentro de nossas próprias casas, tendo vocês como nossos adoradores.

Vivemos hoje numa época em que os jovens são mais livres e aceitamos isso até que com certa naturalidade, aceitamos as meninas adolescentes relacionando-se intimamente com outros meninos adolescentes, mas desde que esta situação ocorra na casa do vizinho, e quando essa realidade começa a adentrar nossas casas, nós ficamos sem saber o que fazer porque achamos que vocês são novas e imaturas demais, mas não temos a coragem de chamá-las para termos uma conversa a respeito, para saber o que vocês pensam, e às vezes não fazemos isso, por medo de perceber que vocês já não são tão imaturas assim e que querem ter o direito de conhecer a si próprias, e que talvez até possam nos apresentar argumentos fortes o bastante, e que nos deixarão sem ter como contestar. E se isso acontecer o que faremos? Optaremos por permitir que vocês busquem sua felicidade e façam suas próprias descobertas ou preferiremos manter a proibição para não sermos criticados pela sociedade; é uma questão difícil de ser resolvida.

Temos enorme medo de que vocês; nossos meninos adolescentes se enveredem pelos caminhos das drogas e conversamos com vocês sobre o assunto, mas quase sempre de forma impositiva ao invés de explicativa. Sabemos que estamos errados agindo assim, mas temos medo de que tendo uma conversa franca e aberta com vocês possamos passar a idéia de que somos liberais neste assunto e que vocês venham a fazer uso das drogas, fazendo-nos sentir derrotados e falhos na maneira de criá-los, e por esses motivos; nossas meninas e nossos meninos adolescentes, freqüentemente exercemos um rígido controle sobre suas vidas, invadindo até as suas privacidades, violando seus segredos de adolescentes, revistando e vasculhando seus pertences, tentando encontrar indícios de algo que temos medo de perguntar diretamente a vocês ou então preferimos fazer vistas grossas como se nada soubéssemos sobre o que se passa com vocês.

Às vezes queremos passar uma imagem de que somos legais e liberais; deixamos vocês envergonhados diante de seus amigos porque ora fazemos papel de bobos da corte com nossos excessos de brincadeiras tolas, ora somos indiscretos contando inúmeras historias de quando vocês eram pequenos, e quando não, tratamos vocês como crianças fazendo vocês se sentirem diminuídos... é que nos sentimos perdidos e até com uma ponta de inveja de ver tanta juventude e espontaneidade juntos e não raramente adquirimos uma postura forçada de adolescentes também e para arrematar essa nossa falta de aptidão, não damos privacidade a vocês e seus amigos.

Enfim... sabemos que poderíamos ter falado sobre outras tantas falhas de relacionamentos que temos com vocês, mas se tomamos esse difícil passo inicial é porque queremos crescer, queremos nos redimir e mostrar que ainda há chance de sermos pais e mães mentalmente mais saudáveis antes que nossas doenças se apoderem de vocês.

Estamos aprendendo que amar é respeitar.

Cida Martini

Dois jovens adolescentesapaixonados e drogados

A cena é a seguinte: dois jovens num ônibus, a moça dormia no colo do rapaz, encolhida, feito um bebê, percebia-se que ambos estavam alterados, talvez drogados.

Ele a cada minuto passa a mão nos longos cabelos como se fosse um cacoete. O ônibus chacoalhava e a moça nem sequer dava sinal de que iria despertar de seu sono, nem mesmo quando ele mudava de posição tentando achar um modo melhor de se acomodar. E isso ocorria com freqüência.

Ela estava ali, com sua pouca idade suas calcas rasgadas, seus cabelos trepintados, segura, dormindo tranqüilamente nos braços do seu namorado.

Ele timidamente dava-lhe beijos na testa e a acariciava, externando uma manifestação de carinho comovente e despreocupada.

Dois adolescentes apaixonados e possivelmente drogados.
Entregando-se a experiências sem medo da desaprovação do outro quanto aos seus atos... apenas se entregando aos cuidados um do outro. Apenas confortando o outro... sem julgamento, sem críticas sem se importarem com os usuários daquele ônibus.

Logo, ele será um adulto e esquecerá do não julgamento, do dar conforto, porque terá aprendido que homens são durões e com a função de regrar o mundo conforme a sua vontade,... sem compreensão.

Ela, será uma adulta e aprenderá a não expor suas fraquezas, mas dissimulá-las transformando o parceiro em culpado por seus atos considerados inseguros e infantis.
Logo... deixarão de viver e passarão a seguir a manada.
Sem experimentar, sem vivenciar ... apenas sobrevivendo.

Cida Martini

Contra mão

E de repente, um belo dia você se depara pensando em si próprio, nos caminhos pretendidos e nos que foram percorridos de fato.

Pesa prós e contras, pondera, analisa e verifica o resultado: - saldo negativo - numerosas frustrações, decepções e amarras que te fazem perceber que você é um estranho até para você mesmo, que em nada se parece com aquela pessoa que tinha inúmeros caminhos prazerosos a trilhar.

Mas o que aconteceu de errado? O que te fez se tornar essa criatura irreconhecível até para você mesmo?
Volte no tempo e perceba que você está hoje no meio de uma estrada que no início também te parecia prazerosa.

Casamento insatisfatório, trabalho estafante, vida social ilusória e uma apertada máscara em seu rosto que te impede de expressar livremente suas emoções. Nota também que todo o restante do seu corpo está preso por cordas, tal qual uma marionete e que seus movimentos são controlados por regras sociais.

Olha para frente e vê que ainda existem outros tantos caminhos a tomar, mas que para tanto, será preciso enfrentar alguns contratempos que a princípio te parecem intransponíveis, como findar um casamento de vários anos; o que te deixaria feliz, leve e livre para o encontro de uma nova união em sua vida, ou seja, se dar o direito de permitir a entrada de um novo relacionamento em sua vida que te possa trazer prazer e felicidade numa relação a dois; mas que em contrapartida traria enorme constrangimento para os seus; intromissões de amigos e familiares, todos na intenção de resolverem em poucas conversas e argumentações, algo que durante anos as pessoas mais interessadas e afetadas não conseguiram.

Outro caminho pode ser a mudança de carreira; tendo que recomeçar por vezes sentado novamente em bancos de escolas, na incerteza de que dessa vez estará fazendo a opção certa, dando inúmeras satisfações aos que te rodeiam para que não pensem que você é um fracassado na carreira atual, mas apenas quer unir necessidade e satisfação; ou deixar de fazer parte de alguns círculo de amigos, reuniões sociais e até mesmo rotineiros encontros familiares porque não se sente mais interessado pelos superficiais assuntos e opções de passatempo propostos.

Mas como modificar tudo isso, sem causar descontentamento às pessoas ao seu redor. Simplesmente impossível! Romper com regras e conceitos é um processo doloroso; porém de vital importância para quem pretende reformular a vida.

Perceba que cabe somente a você, a decisão de continuar nesta caminhada angustiante, tentando enganar a si mesmo “considerando-se” feliz, e deixando todos ao seu redor plenamente satisfeitos; ou... decidir por mudar tudo o que não lhe agrada.

Certamente esta segunda opção causará alguns desconfortos para você e para os que te rodeiam, mas depois de algum tempo, depois de passada a tormenta, sempre vem a calmaria, não é assim que diz o ditado!

E porque isso acontece? Porque você não é o centro das atenções das pessoas que te rodeiam; elas também tem suas próprias vidas para se ocuparem, elas também tem seus próprios caminhos.

Enquanto você ficar na imobilidade, maior será a sua insatisfação ao ponto dela estender-se para além das fronteiras, alcançando inclusive o território daqueles que você tenta poupar dos incômodos gerados por sua mudança de trajetória.


Cida Martini

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

No final

É um mal que me acomete as entranhas, rasga minhas carnes, dilacera minha alma.
É um querer sem sentido, fugindo do objetivo que é estancar essa maldade.

Querendo mudar, sou vítima da situação, me negando agir sou vilão sem memória... que não se lembra o quanto sofreu tendo que aceitar essa dor, esse mal. E todo esse desatino.

Gostando ou não convivo com isso me faço de sonso, como se não fosse comigo.
Mas o grito irrompe garganta, entranha adentro e me sufoca.

Sou fraco. Sou forte! Combato essa vontade que me faz fraco.
Nome desse texto - Suicídio


Cida Martini

Caros amantes

Quando depois de muito esperar, eis que a figura finalmente adentra ao recinto.

Meio cabisbaixa, assim, olhando de soslaio como que não quisesse ser reconhecida.

Caminha em direção à ela com passos firmes. Joana sente um calafrio tomando-a pouco a pouco, e depois mais rápido terminando num muito. Algo que acaba se tornando incontrolável e difícil de decifrar.

Medo, ansiedade, curiosidade. E tudo isso mesclado a um desejo que lhe aquece a pélvis. Após uma longa troca de olhares, concordam em sentarem-se.

Bebidas inocentes. Petiscos leves. Conversas amenas.
Bebidas adultas. Porções afrodisíacas. Conversas excitantes.
Bebidas devastadoras. Alimentam-se com os olhos. Sussuros indecentes.

Saem a procura de qualquer lugar que possa acomodar dois amantes a altura dos seus desesperados desejos. Encontram.

Explodem-se em amores, lambuzam-se em sabores. Saciam as carnes. Quietude.

Dormiam um profundo sono quando o celular de Joana toca. Ela atende e ouve o interlocutor, apenas acenando com a cabeça.

Desliga e salta da cama para se arrumar apressadamente.

Sai sem dar explicação e sequer diz adeus.

Quando chega em casa toma um susto ao ver seu marido em frente ao monitor com vários arquivos seus abertos. Ela que sempre tivera todo o cuidado para proteger seus segredos, acabou se descuidando tomada pela emoção que sentia diante da possibilidade daquele encontro.

Senta calada diante dele esperando pela reprimenda. Para sua surpresa, Alfredo a abraça terna e demoradamente. Mesmo sem entender, Joana sente um alívio.

Sem se falarem com palavras, ele a leva até o quarto, veste-lhe a camisola e ajeita-a na cama.

Quando ela acorda fica chocada ao ver à sua frente, Alfredo e Marina.

Embora suas expressões fossem tranqüilas, ela continuava sem entender. Tentou esboçar uma frase interrogativa, mas foi calada com um descarado beijo de língua de Alfredo. Resiste... um pouco.

Percebe que nunca havia sido beijada tão despudoradamente assim por ele. Como não se sentia moralmente apta a iniciar algum debate sobre a insólita situação, apenas entrega-se a esse prazer desconhecido.

Sente que vai sendo mais abraçada do que Alfredo poderia envolvê-la. Sente então que Marina também a acaricia.

Após uma intensa e reveladora noite, Joana fica sabendo que Alfredo e Marina sempre foram amantes, antes mesmo deles se casarem e que tudo fora armado por Alfredo, desde o encontro virtual até aquela noite a três.

Com as idéias clareadas, conclui que somente um homem que a amasse muito dividiria com ela seu oculto objeto de amor. Olha com ternura para Alfredo que ainda dorme e dá-lhe um beijo na face em sinal de agradecimento.

A noite do dia anterior havia sido maravilhosa. Entregare-se as carícias do até então amante virtual e clandestino, ao menos era o que ela pensava, acreditando que Alfredo desconhecia seu caso virtual com Marina. Porém, para ela, amor a três era algo sublime e sem margens para ciúmes, pois os três se pertenciam.

Cida Martini

sábado, 12 de janeiro de 2008

Ecologia Consciencial

A raça humana não tem trégua.

A luta pela vida e a manutenção desta tem feito do homem um ser em constante conflito, com o meio ambiente e, principalmente consigo mesmo.

Sob a justificativa de que ao homem cabe o papel de controlar, manter e dominar as outras espécies ele tem produzido no meio ambiente desequilíbrios de tal ordem que estão tirando do planeta as condições básicas para que continue sendo o habitat ideal para os humanos, e tendo como conseqüência à geração de um meio totalmente favorável à proliferação de todo tipo de doenças.

Quando assistimos a ação predatória de alguns povos sobre o meio ambiente (animal, vegetal ou mineral) ficamos com a nítida sensação de que estes predadores não se consideram como seres pertencentes a este planeta e que, por estarem aqui apenas de passagem, não sofreram as conseqüências dos seus atos insanos. Não aceitam limites, não assinam acordos e quando o fazem impõe prazos para mudanças que chegam a nos dar a impressão de que eles possuem um bem elaborado plano de evasão do planeta. E aos que sobreviverem, que resolvam e se adaptem às novas condições.

A economia de mercado, tem sido uma das razões alegadas para justificar os desmandos e as agressões que são feitas ao planeta e conseqüentemente a todos nós. Mas o Mercado não seriam os próprios humanos ou Mercado é algo além do humano?

Temos sido solapados não somente externamente, mas principalmente em nossa possibilidade de manifestação enquanto consciências. Regras para aprender? Não existem limites desde que não usemos outra cartilha.

Somos tratados como seres acéfalos por aqueles que detém o controle da saúde, educação e religião e querem nos fazer crer que sem a presença constante, protetora e determinadora em nossos caminhos não poderemos chegar a lugar algum.

As doenças que hoje acometem a raça humana têm em sua base um ingrediente comum; a incapacidade de se perceber como ser individual. Ficando este vazio que a falta de identidade produz e que hipnóticamente preenchemos com os sedativos, as merendas, e as bênçãos vindas daqueles que detém o controle de tudo.

Consciência global é para criaturas civilizadas como as abelhas ou as formigas, não para a raça humana.

Ser civilizado hoje é:
Buscar o seu próprio caminho desde que ele não seja feito por você mesmo.

José Aparecido

As verdades de cada um

Quando penso em definir alguma coisa, logo me vem a certeza que vivemos em um mundo onde pouquíssimas coisas podem ser definidas.


Verdades e mentiras são coisas opostas, qualquer dicionário assim as define, mas a nossa relação diária com o mundo, um dicionário não consegue traduzir.

As sensações decorrentes de cada emoção vivenciada são coisas por demais pessoais, e isto é particular.

As impressões que temos do nosso cotidiano passam pelos filtros que a nossa experiência de vida criou ao longo dos anos, portanto, um mesmo evento produz reações diversas nas pessoas.

Quando nos relacionamos com as pessoas em qualquer círculo é muito importante não perdermos isto de vista; temos que estar atentos aos nossos preconceitos para que estes não nos tornem cegos diante de certas evidências que se nos apresentam, e para as quais, muitas vezes nos fechamos totalmente.

Como fazemos amigos, e como nos relacionamos com eles?

As posições políticas do meu amigo são as mesmas de um colega de trabalho com o qual eu não me afinizo, mas qual dos dois me ofende mais?

Aí talvez resida um dos maiores perigos da não percepção do outro, aquele com o qual nós convivemos todos os dias muitas vezes até mais horas do que com nosso amigo ou nossos entes mais queridos. As nossas verdades direcionam a nossa vida, ditam as regras do nosso cotidiano e tudo isto foi assimilado por nós a partir das nossas mais distantes experiências, algumas começaram a ser formalizadas no berço de uma forma sutil, afinal aqueles a quem recorríamos nos nossos momentos de necessidade nos atendiam com a solicitude e a atenção que eles entendiam ser necessárias para cada uma das nossas queixas, e então, fomos assim interpretando cada um destes movimentos e armazenando estas informações, que hoje ditam as regras do nosso comportamento em muitos aspectos, e que por vezes estamos longe de compreender e relacionar com tempos tão distantes de nossa vida.

A característica marcante deste nosso mundo parece ser a crença que a maioria de nós tem, de sermos os donos da verdade, e defendemos com unhas e dentes os nossos pontos de vista, em nenhum momento nos ocorre que aquilo que nos alegra pode deprimir os outros?

Não existe um ser humano igual ao outro, somos criaturas distintas e, no entanto, tentam nos educar como se fossemos seres criados em uma linha de produção, onde todas as possibilidades existentes tenham sido elaboradas e projetadas segundo um molde criado por um engenheiro do universo, e que assim, todos podem receber uma mesma educação, moral, social, política e religiosa tornando-nos assim seres robotizados, sem dinâmica própria, com reações totalmente previsíveis e, portanto fácil de sermos controlados.

Não somos iguais em nada, nossos mecanismos de funcionamento nos tornam diferentes, vide questões de rejeição orgânica, transplantes, transfusões que não são possíveis até entre irmãos, pessoas que com o mesmo padrão de sangüinidade demonstram esta impossibilidade.

O nosso comportamento social retrata com muita clareza esta coisa das diferenças, não reagimos da mesma forma a eventos idênticos, não nos alegramos ou nos entristecemos pelas mesmas coisas, somos seres muito diferentes.

Temos incutido em nós a crença de que a igualdade é um sonho possível, e eu acredito ser este um bom sonho.

Mas que somente poderão ser realizados quando conseguirmos compreender as diferenças de cada um.

José Aparecido

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Desencanto

Depois de tantos anos você aparece calvo, barrigudo e sofrendo de ejaculação precoce e me encontra surtada, descabelada e cheia de dentes postiços.

O que foi feito de nós?

Éramos tão jovens. Planejáramos tanta vida, tanto gozo, tanto riso.

E rimos, rimos muito um do outro, do rascunho mal desenhado que nos tornamos.

E nos consolamos jurando nos amarmos dentro do máximo permitido pelas nossas frustrações... não conseguimos.

E nos separamos prometendo união eterna no nosso desencanto.

Cida Martini

Aproveite!

Aproveite enquanto seu amor está vivo, festeje-o, comemore-o, escute seu amor, diga o quanto o ama.


Um dia seu amor morrerá... um dia você estará sem a companhia do seu amor e a dor certamente virá. Amenizada ela poderá ser se tivermos boas lembranças, bons sentimentos, tivermos amado, tivermos abraçado, beijado tudo o que podíamos.


De repente pode até ser que você morra primeiro, mas isso não muda nada. O que importa é a vida, é viver com vontade com plenitude, com amor... com muito amor. Amor de companheiro, amor de filho, de irmão, de amigo, de vizinho.


Um dia você não mais sentirá cheiro de perfumes, sabores de comida, deixará de rir por banalidades, não mais passará horas em frente a TV, ao computador, lendo livros, folheando revistas.


Um dia você morrerá. Um dia você adoecerá. E tudo ficará cinza. Você sabe quantas cores existem? Quantos perfumes... quantos sabores... quantos amores.

Cida Martini

Nosso menino

Cada dia que passa vai ficando mais difícil, tornando-se mais penoso executar a tarefa de ser pai e mãe ao mesmo tempo. O menino está grande, crescido e bem criado mas quem olhar atentamente pode perceber que ele sofre também por não ter mãe.


Quero resolver isso mas como? De que jeito? Se a lembrança de Maria ainda dói. Só de pensar me vem lágrimas que tento esconder em vão.


Maria foi meu tudo. Meu fôlego, meus braços, minha razão, minha vontade. Maria foi o nosso desejo de amar, de ter um filho. Maria foi o nosso sonho transformado em realidade que virou pesadelo. Maria se foi sem tê-lo visto e hoje ele chora por alguém que não conheceu.


O que sobrou de mim se dividiu em dois. Sou eu e sou ela então... logo, sou nada. Talvez se eu arrumasse alguém... talvez. Quem sabe ela poderia fazer as vezes de Maria. Bobagem! Igual a ela não aparece outra jamais. O menino não vai entender e eu não vou querer alguém que não possa ser quem ele precisa.


Enquanto isso vivo de Maria... e estou morrendo também. Nada de novo, só as mesmas lembranças culminando em morte.

Vou perecendo em vida, por duas vezes já quase morri, mas o menino me socorreu com o seu sorriso de vida. Um dia consigo. O menino não vai sofrer. Sofrimento ele tem hoje sem um pai inteiro cuja metade é a mãe morta.


O menino precisa de vida. Com a morte lhe transplanto vida, pela segunda vez. Morte lhe traz vida. Acho que ele não precisava mesmo de nós.


E eu preciso tanto de Maria.

Cida Martini

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Antonio das Almas

Nascera defeituoso da alma. Fazia qualquer coisa por dinheiro. Matar era quase uma religião.

Nunca falhava, tampouco se ocupava em saber quem era a vítima. Mais uma empreitada. Dinheiro bom!

O mandante apenas dissera que a paga seria dobrada de valor com uma condição: que ele jurasse em público que faria o serviço sem antes conhecer o nome do encomendado.

Assim foi feito! Juramento prestado e o nome revelado.

Antonio das Almas, ele mesmo.


Arma apontada goela adentro, mão estendida cobrando. Dinheiro recebido e guardado. Gatilho disparado. Morreu rico e de alma limpa por nunca desonrar uma jura.

Cida Martini

Socorro!

Socorro!
E agora o que sobrou?
Eu solitariamente acompanhada de mim.
Eu perdida em meio à multidão que sou.
Ecos de mim!

Decidi que sou, ou se preferirem que quero ser escritora.
Me preparei para isto.
E me preparei muito!

Turbinei meu PC.
Vasculhei toda a Internet.
Descobri que Rosamunde Pilcher escreveu Catadores de Conchas.
Que Charles Bukowski escreveu Notas de Um Velho Safado.
E manequins nus então?! Livro raro! Raríssimo, mas tá a venda num site de leilão.

Já sei de cor a diferença entre conto e crônica.
Consegui meu ingresso em mais de duzentas comunidades sobre livros, literatura, escritores famosos, escritos anônimos, escritores criativos, não criativos, os que querem publicar um livro, os que já publicaram, os que escrevem em grupo.
Bom... fiz de tudo.

E me encontro neste exato momento munido de papel, monitor, caneta, mouse, teclado...
E muita, mas muita falta de inspiração.

Sem tema
Sem assunto
Sem idéia
Nada
Socorro!

Cida Martini


Devaneios de uma tentativa de viver

Cada vez que eu penso que eu esqueço, eu me lembro

Cada vez que eu penso que eu me lembro, eu esqueço

Esqueço que um dia sonhei, chorei, implorei, mas não tive resposta

O sonho não realizado deixou um vazio imenso um eco intenso varrendo minha alma

Ai que saudade de mim! Da minha inocência

Do tempo em que eu acreditava que bastava sonhar para realizar

Hoje eu sei que a realização vem com a crença na nossa capacidade de criar

Mas a criação verdadeira só nasce de um ser verdadeiramente criado

Ai! Um dia eu tive um sonho de ser grande!

De ser maior que tudo aquilo que um dia meu pai pôde pensar

E hoje que eu sou grande não sou mais grande do que eu posso sonhar

Vida que um dia tive em vida, não foi a vida feita para ser vivida

E que vida é essa? Me perguntei?

Não posso responder...

Porque também não sei

José Aparecido

Poder da natureza

A hora só poderia ser esta, tudo neste momento cheirava a cumplicidade. Os dois ali naquela casa sozinhos; ele um simples entregador de mercadorias parado diante daquela mulher estranha que o olhava de uma maneira profunda, enquanto pegava a nota para assinar o recebimento da entrega.

Devolvendo a caneta as mãos que se tocam os olhos que se cruzam e uma força incontrolável que os arrebata um para os braços do outro. Nunca se viram, mas esta força estranha os tornando tão íntimos.

O temporal que se avizinha os trovões que cortam o céu, a chuva que vem de tal forma caudalosa que seria impossível naquele momento, a chegada de alguém.

As roupas que se arrancam, a entrega, o gozo, o prazer de forma incontida, a entrega tão profunda, como nada havia sido tão profundo em suas vidas.

Corpos rolando pelo tapete macio da pequena sala, os espasmos que chegam, a chuva que grita o seu poder abrindo as entranhas da terra, e tudo se esvai com um saciar dos líquidos que escoam, transformando secura em saciedade, calor em frescor, tensão em orgasmos.

É o prazer da criação devolvendo a vida à aridez das estruturas, que nada mais precisam para viver do que a entrega aos seus mais profundos sentimentos.

O afastamento, a surpresa, o rubor nas faces, fazendo-os recuarem de forma cansada, porém, sem palavras, sem desculpas, somente a restauração das vestimentas retrata a intimidade que ora se conclui, deixando num até logo uma saudade de algo que talvez jamais se repita.

A chuva fina que agora persiste, permite que o movimento retorne à vida daqueles que se esconderam de tão profícua dádiva da natureza.

José Aparecido

Perturbação

Aquela já era a quarta vez que ela atendia o telefone e sempre ouvia o mesmo silêncio do outro lado.
Nenhuma voz, nenhum alô... nenhum olá.

Estava ficando incomodada pois gostava de sua privacidade, de sua vida anônima e no entanto, aquela desconhecida pessoa do outro lado da linha insistia em querer tornar-se íntima dela. Sabia que era sempre a mesma pessoa porque o modo de ação era sempre o mesmo, e essa perturbação vinha acontecendo a mais de um mês.

O telefone tocava e depois do terceiro toque ela atendia e ouvia o mesmo silêncio. Se ao menos esse estranho diferenciasse o silêncio ela até que poderia ficar em dúvida. Mas não! O silêncio era sempre o mesmo, e pelo jeito ele não pretendia nem disfarçar.

Cansou-se daquela situação. Não poderia permitir que continuassem a perturbá-la e não daria brecha para que adentrassem na sua íntima privacidade.
No dia seguinte, sua primeira providência fora ir pessoalmente registrar sua queixa na companhia telefônica solicitando que desativassem sua linha por tempo indeterminado.

Feito isso, voltou para casa aliviada. Sabia que daquele momento em diante teria sossego. Teria a paz e a calmaria que sua vida solitária lhe proporcionava.

Dias depois leva um enorme susto. Ao atender o interfone ouve a voz do carteiro a lhe dizer que havia um telegrama para ela.

Não era possível! O estranho que tentava violar sua intimidade estaria agora enviando telegramas?

Exita bastante frente ao telegrama. Medo e curiosidade. Curiosidade e medo.

Decide. Abre o telegrama e lê:

A Cia. Telefônica vem informar-lhe que seu pedido de desligamento temporário da sua linha telefônica não foi possível de ser atendido.
Sua linha já encontrava-se desconectada do poste externo há mais de cinco meses.
Por engano foi desligada na ocasião a sua linha quando deveria ter sido a linha da residência ao lado.

Pedimos desculpas pelo transtorno.


Cida Martini

Acordando com as Letras

Nosso objetivo é o de compartilhar com os amigos já sacramentados e os novos que virão, os nossos escritos, nossas idéias, aquilo que faz parte do nosso processo de criação.

Escrevemos há bastante tempo, mas somente agora é que resolvemos torná-los público.

Nós, pessoas comuns, esbarramos sempre na máxima: de que escrever não é para qualquer um, e por conta desta crença deixamos muitas vezes de expressar aspectos pessoais do nosso ser que clamam por viver através das letras.

Escrever é para todos. Os sentimentos precisam ser registrados no tempo com a pureza do momento em que brotam através da inspiração, a validade deles quem determina é o coração.

Tudo é importante neste nosso universo de escritores, todos os fatos são relevantes e podem nos inspirar a viver através das letras os nossos mais brilhantes movimentos de criação.

O nosso escrever é o que nos diferencia uns dos outros e cada um é exclusivo na expressão dos seus sentimentos. Homem ou mulher, não importa, letras não tem sexo.

A consciência do poder da escrita nos acorda para o mundo das letras.

Tudo é uma questão de treino, e confessamos que temos treinado muito.

Gostamos de escrever, e este é talvez o lado da nossa personalidade que mais nos permite liberdade.

Neste espaço gostaríamos de dividir com vocês, um muito desta liberdade de podermos ser escritores.

Cida Martini

José Aparecido

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